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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#121 o meu mito de santo antónio

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Foi há treze anos, a minha primeira noite de Santo António em Lisboa. Aceitei o convite de uma amiga, encontrei-me com ela no Campo das Cebolas e subi, subi, subi. Uma multidão inundava esta área da cidade que eu nunca havia visitado. Curvas loucas e piso que me fugia das sandálias rasas, pouco dinheiro na carteira, como estudante que era, medo de me perder das minhas amigas no meio de tanta gente. A minha vida longe de casa contava com apenas sete meses, oito no máximo, Lisboa ainda era estrangeiro para mim. As pessoas cantavam as músicas pimba com convicção, enquanto se apinhavam em quiosques de cerveja sagres durante vinte minutos para pedir um fino. E eu não percebia porquê.

 

A dado momento, ouviu-se um barulho e criou-se um alvoroço em menos de um segundo, juro que pareceu menos de um segundo até ver a pimeira cadeira de plástico a voar. Cadeiras, copos de plástico a voarem em câmara lenta com cerveja a cair, garrafas de vidro, gritos. Fugi e em menos de nada já tinha ultrapassado este alvoroço e continuava a subir para o Castelo de São Jorge onde, supostamente, se assistiria ao clássico fogo de artifício da cidade. Chegadas a um portão enorme, um segurança diz que não podemos entrar, que o castelo estava fechado. Fiquei atónita. Como assim, estava fechado, se a tradição era assistir ao fogo a partir do Castelo?

Não, não estou a brincar consigo, também não compreendo porque é que as pessoas insistem em vir aqui assistir ao fogo de artifício, se o castelo fecha cedo, olá boa noite, faça favor. Não, só pode estar a brincar. Acabei de me mudar para Lisboa, dizem-me que a tradição é assitir ao fogo no castelo, estou há imenso tempo a subir estas ruas e, enquanto dou com o nariz na porta, o segurança deixa entrar uma mulher qualquer? Olhe, desculpe mas acabou de deixar entrar uma pessoa. Não, não deixei, o Castelo está fechado. Sim, deixou, eu vi, até disse olá boa noite, faça favor. Essa senhora é moradora. Moradora de quê? Do Castelo? É a Rainha? E ri-me, ri-me muito. Sim, do Castelo, Não acredito. Está a dizer-me que moram pessoas no Castelo? Sim, há. Ri-me outra vez, desejei boa noite e desci a colina a achar que tinha dado o gosto ao segurança de pensar que me tinha pregado uma grande tanga. De forma menos monossilábica, contaram-me mais tarde que havia casas dentro das muralhas exteriores. E que a tradição era ir ao Castelo comer sardinhas, não necessariamente lá dentro. Com duas frases, tudo fazia muito mais sentido, para sempre. Por alguma superstição louca qualquer, decidi que iria lá com alguém realmente importante e, assim, minha primeira entrada no Castelo só aconteceu dez anos depois, com o meu actual companheiro.

Continuo a não apreciar a confusão, as runhas apinhadas e as filas para a cerveja. Mas da mesma forma como as ruas de Lisboa se me entranham, hoje passo o dia de Santo António com os meus pais, longe da capital e só me apetecem sardinhas. Desta vez, quem os convida sou eu.