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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#118 nós não ganhamos para isto, senhores

 

Licenciados, com estágios e pós-graduações e workshops e formações caríssimas, com boas notas, com investimento. Chegados aos trinta, os nossos salários são inferiores a mil euros por mês. Para muitos, brutos. O IRS, a segurança social, a alimentação, a roupa, os transportes, a higiene, os produtos de limpeza da casa, o carro, os extras anuais que ninguém espera mas sempre acontecem.

 

 

Os dedos alternam-se entre o idealista, a casa sapo e o olx. 800€ por buracos de 60m2, longe do metro com cozinhas mais velhas que o meu falecido bisavô. Pintam as paredes e chamam-lhes renovadas, no título. T1 na Sé para venda, 75m2, 850.000,00€, sim, oitocentos e cinquenta mil euros. Para todos os infortunados que estão neste momento à procura de casa porque os seus contratos de arrendamento vão terminar dentro de semanas e o senhorio está interessado em mudar arraiais para o Airbnb, o meu abraço sentido e votos de boa sorte.

 

Sinto que pertenço ao grupo de quem espera que algo se altere. Que alguém ganhe consciência do que está a acontecer na cidade de Lisboa (dizem-me os meus amigos que no Porto está a começar a acontecer o mesmo). Que se crie um mecanismo para parar este processo - seremos Paris ou Manhattan? Incapazes de comprar uma casa na cidade, de arrendar um apartamento com um salário normal? Eu, que estou apaixonada, estou bem acompanhada. Antes, tinha de dividir com amigas. E as minhas amigas solteiras, têm que dividir com outras amigas. Algumas são advogadas de trinta e tal anos, com contratos de trabalho. Não era este o cenário esperado quando entrámos na faculdade. Vamos voltar aos anos 60, em que as pessoas se casavam para poderem sair de casa dos pais?

 

Ontem fui às compras com a minha mãe. Ela pagou-me as roupas novas, de verão. Pedi-lhe, ela sabe que isso ajuda em muito no meu orçamento. Não concorda com uma série de gastos que tenho, ela e o meu pai não se davam a tantos luxos, viagens, restaurantes caros. E ganhavam há trinta anos, em escudos, muito mais do que o que eu ganho hoje, em euros. Mas eu, que sinto que pertenço a este grupo de quem espera que algo se altere, sei que o futuro é incógnito. Que entre o Trump, o liberalismo económico, a instabilidade da união europeia, os cancros e o aquecimento global, não posso viver a contar com o paraíso da reforma. Não posso deixar o tártaro de atum para depois nem o México para quando os filhos forem adultos, porque, convenhamos, quantos me deixarão ter? Vou investindo o que tenho, em mim, transformando o pouco em muito. Entretanto, gostaria de não ser chulada com as rendas de um T2 com vista para lado nenhum.

 

Enquanto percorríamos os corredores do centro comercial, cruzámo-nos com outras jovens mulheres da minha idade e outras mães da idade da minha, na mesma procura incessante por um equilíbrio e um vestidinho de ombros à mostra.

 

 

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