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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#111 gula - ep.4

 

A primeira vez que provei sushi foi no Rio de Janeiro, em 2001, última refeição antes de regressar a Portugal. Não gostei nada. Hoje lembro-me da textura e percebo que não gostei porque era mal preparado. Em 2004, a medo, repeti a experiência e desde então nunca mais parei. Nos últimos treze anos, houve semanas após semanas em que nenhuma passava sem umas quantas fatias de sashimi. Mudei de morada para o outro lado do atlântico várias vezes, América do Norte, Caraíbas (onde quase só comi frango e lagosta), América do Sul. Foi em Los Angeles que comi o melhor temaki da minha vida.

 

©PAUL SIRISALEE

 

 

Foi assim:

Triste, aproximei-me do balcão do restaurante para me sentar e esperar por uma mesa. Encostada, alheia, senti uma mão estendida na minha direcção. Here. It’s for you. Qual ramo de flores milimetricamente configurado, o temaki na mão de um japonês que me olhava nos olhos, paciente. Pareceu feito de eternidade, aquele olhar. Agradeci. Abocanhei o temaki sem mais nada, como se comesse o amor que me faltava. O amor do japonês estava todo lá, no peixe, no arroz, na dobra da alga. E chorei. E ainda me emociono quando penso na beleza do gesto dele que, com profunda sensibilidade, viu o meu caos interior e me alimentou de empatia. Chorei enquanto comia. Limpei as lágrimas, sorri. This was the best temaki of my entire life. Thank you. Thank you so much. Ele sorriu e baixou a cara. E eu baixei também, em sinal de agradecimento.

 

No outro dia, passados tantos anos, assistia a uma série sobre Chefs da Netflix e lá estava ele, o velho Japonês que nunca esqueci. E chorei quase todo o episódio, de beleza, de lembrança, de amor pelo próximo.

 

Entretanto, em Portugal, o sushi tornou-se cada vez mais acessível, com franchise de buffets e rodízios dominados por brasileiros e chineses, menos qualidade de confecção, menos preocupação geral com a importância da minúcia na arte do sushi. Matei a gula toda e deixei de ir a esses restaurantes, já não me trazem, de todo, prazer. Hoje como sushi com muito menos frequência do que antigamente, mas como em lugares muitíssimo melhores, fiéis à tradição e preocupados com a qualidade. E voltei a apaixonar-me pelo peixe cru com a mesma chama de antigamente.

 

Aconselho o Aron Sushi, na Rua Marquês Sá da Bandeira, 14, perto da Gulbenkian e do Corte Inglês. Tem uma carta muito boa, com, por exemplo, shimeji para entrada e gelado de sésamo para sobremesa. Bons vinhos, peixe fresco, excelente atendimento. É o meu eleito, de momento. 

 

 

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