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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#108 gula - ep.3

 

 

 

Sou uma pessoa de muitas alergias. Garanto, contudo, que não escolhi ter nenhuma. Quase toda a fruta, alguns tipos de tomate, algumas árvores e relvas, pólen, pó, ácaros, gatos, cães, anestesias, medicação e alguma intolerância à lactose. Não posso beber um sumo de laranja há mais de dez anos e não sei o que é viajar sem levar um papel com números de emergência, um kit de adrenalina, seguro de saúde em viagem e muitas perguntas insistentes: I’m asking if the food has fruit, or the sauce was made with any kind of fruit. Caras de caso, compreendem-me, mas acham bizarro.

 

 

Em Portugal, o bullying: ai Helena, também, tens cada problema, esta rapariga está cheia de alergias, não pode fazer nada. E eu, a tentar acalmar o bicho que se me cresce no peito a cada frase com tom de condenação, como se fosse mania, como se fosse escolha, como se fosse, imagine-se, hipocondria. Como se eu não sonhasse que um dia um imunoalergologista me dissesse que estaria livre para comer uma manga à dentada. Eu faço muitas coisas, faço, aliás, quase tudo o que me aprouver. Muito mais coisas do que muito dos muitos que me olham com sorriso no canto direito e aquele semi-suspiro de graçola, ai qu’esta também tem cada uma, alergia a tudo, mas acontece-te o quê, umas bolhinhas? Resposta: se não for socorrida, morro. A maior parte das vezes não respondo, porque para além de ter de me privar em silêncio de uma boa quantidade de coisas da natureza e de temer cada anestesia ou vacina prescrita, as pessoas não perguntam realmente para saber a resposta. É uma pergunta vazia, uma cauda para continuarem a fazer aquele bullyingzinho desnecessário e infrutífero. Sorrio. Sois pouco.

 

Aparte  

Tenho pai médico que me acompanha neste processo e uma nutricionista (A Nitricionista) que, embora não faça com ela um plano alimentar por culpa da minha vida desordenada, está à distância de um telefonema me orienta nas minhas dúvidas. Faço análises e testes com frequência, sou seguida por mais do que um imunoalergologista. Com isto, pergunto-me: e quem não está informado das particularidades do seu próprio organismo, como faz? A dieta não está na moda, não se pode navegar na internet e decidir o que é melhor para nós como se fossemos estudados no assunto, nós, especialistas noutras áreas que não a nutrição e a medicina. Para isso, estão cá eles, que estudaram para nos amparar e guiar. Estamos presos ao nosso corpo pra sempre, dizem.

 

Fui jantar com pessoas que não conhecia, acompanhando o meu mais querido. Não senti especial ligação com nenhuma, nem vontade de falar o que quer que fosse meu. Pedi tudo sem pão, incha-me a barriga. O olhar. Trouxeram entradas com coisas que não podia comer. Todos comeram menos eu. O olhar. Quando andava na escola achava que a pressão dos pares e o bullying terminariam com a idade adulta. Erro meu, confundir adultícia com maturidade. Esta última, ainda por cima, pode demorar uma vida a chegar.

 

Vegans que chateiam os amigos que comem carne, que lhes falam de como baixam na sua consideração. Meat-eaters que têm preconceito com vegetarianos e acham que todos pertencem ao mesmo clube holístico. Vegetarianos que não compreendem flexitarianos. Paleolíticos a ralharem no facebook com quem quer aprender a dieta e comeu milho e ervilhas na salada. As dietas deixaram de ser focadas na contagem de calorias para dar lugar a escolhas, a estilos de vida. A ditadura das dietas, contudo, continua. Se não é pelas calorias, é pela intolerância que, até em algo que devia ser tão bonito quanto livre, continuamos a demonstrar com os nossos pares. Leitinho quente com bolachas maria, deixas alguma saudade.

 

 

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