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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#107 o natal ainda dou de barato, agora, a páscoa?

 

Em criança, passei sempre a Páscoa no Algarve. Viagens intermináveis de carro entre o Porto e o destino escolhido da costa algarvia, paragem obrigatória no Canal Caveira, duas semanas de piscina e de brincadeira com os filhos do Dr. Aroso. Éramos onze, nós e eles e nunca celebrámos a Páscoa. Depois vim morar para Lisboa e depois passei quase cinco anos fora de Portugal e entretanto voltei para Lisboa e, no meio dessa confusão, nunca me apercebi que as pessoas efectivamente celebravam a Páscoa. Este fim-de-semana, sozinha, com tudo fechado, fez-me sentir como se estivesse a passar o Natal num país tropical e toda a gente estivesse recolhida com as suas famílias enquanto eu permaneci, à secretária, a trabalhar em projectos novos até a solidão me agarrar.

 

 

Para mim não existem fins-de-semana tradicionais, de sábado e domingo. Nem para mim nem para a maioria dos freelancers, artistas, profissionais liberais e trabalhadores a recibos. Quando dei por ela, estava envolta num sábado silencioso, lojas fechadas, colegas de projectos sem receber as mensagens enviadas no chat, filmes de domingo a dar a um sábado, silêncio, silêncio, natal. Mas está tudo a passar o natal com a família? Porque o natal ainda dou de barato, à pala da Coca-cola. Passou a ser a festa das prendas, da família, do Pai Natal vestido de vermelho e das iluminações e, sinceramente, se o pessoal não se recolhe à volta da lareira naqueles dias, o inverno custa muito mais a passar. Agora, a Páscoa? Mas de repente toda a gente é católico e vamos fechar todos os estabelecimentos e serviços na Quinta-feira Santa e Sexta-feira Santa e mais não sei o quê?

 

E depois lembro-me das minhas férias da Páscoa e junto dois mais dois. São as férias, a passagem do segundo para o terceiro período das aulas dos miúdos, a visita rápida a Portugal dos nossos amigos emigrantes, a desculpa para pararmos uma a duas semanas quando já há bom tempo. E uma amiga perguntava-me: mas quem está a favor de feriados não religiosos e depois aproveita os feriados religiosos, não é hipócrita? Pois claro que não, temos direito a aproveitar as férias/folgas que nos dão.

 

O que não me agrada é ter crescido com o raio da cruz enorme pendurada, sozinha, na parede da sala de aula da minha escola primária, escola pública, no início dos 90, violando a minha liberdade religiosa e a certeza de que vivo num país laico.

 

O que não me agrada é o catolicismo entranhado num país supostamente laico, essa mania de nos porem a celebrar os passos da vida de um senhor chamado Jesus que, tendo tido uma importância gigante no mundo, não entra nas referências do meu crescimento, conhecimento ou crença. 

 

O que não me agrada é tirarem-nos feriados relacionados com a história da república portuguesa e deixarem-nos os feriados católicos, implicando que toda a gente se ausente numa tradição religiosa porque, ou é isso, ou é ficar como eu, lorpa, a achar que ia trabalhar imenso este fim-de-semana e afinal foi tudo comer cabrito.

 

O que não me agrada é dizer que sou ateia, que tenho uma mãe e um irmão ateus, que não cresci com a religião e conhecer quem me olhe subtilmente de lado, como se aí houvesse uma qualquer falta de valores, de base familiar, como se fôssemos uns rebeldes perigosos. Não importa que sejas praticamente, ou até um nojo de pessoa, não importa que acredites, importa que não sejas assim tão radical, Helena, também não é preciso dizeres que és ateia, que exagero. O meu pai é católico e gosta muito de nós, já posso voltar ao quadro imagético da família feliz? 

 

O Natal ainda dou de barato, mas, agora, a Páscoa? Vou ali fazer a mala, amanhã vou de férias. Sim, os norte-americanos chamam-lhe Spring Break - em alguma coisa teriam de ser democráticos.

 

© Twitter Coca-Cola 

 

 

 

 

 

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