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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#110 beleza do vale das furnas

 

Quando lancei o blog, disseram-me logo que ia encontrar naturalmente o meu foco; os assuntos que mais me interessariam explorar seriam definidos com o tempo, com o passar dos meses ou até dos anos. Com treze meses de existência, continuo a sentir-me nessa exploração e redefinição constante. Uma coisa é certa e comprovada: funciona melhor quando dou espaço à visceralidade dos meus constrangimentos e emoções, quando defendo e refuto à minha maneira, sem polimentos. Há espaço para toda a gente e este é o meu espaço, com a voz das minhas miliuma ideias.

 

 

Neste processo comecei a pesquisar sobre produtos portugueses, sobre a nossa pegada mais feia no planeta, sobre testes em animais, entre outros assuntos do género dos quais vou falando em posts como este e este. Encontrei uma marca portuguesa que me despertou francamente o interesse - sim, fui eu e uma amiga que os encontrámos e não o contrário.

 

A mais de mil e quatrocentos quilómetros de distância de qualquer fonte de poluição, os Açores e os seus elementos da natureza únicos foram considerados, pelos seus fundadores, o local perfeito para o desenvolvimento dos produtos da Ignae. No site desta maravilhosa descoberta, pode ler-se que têm em curso “diversos projectos de investigação e desenvolvimento de novos ingredientes, desde o fundo do Mar dos Açores até aos pontos mais remotos e inacessíveis destas Ilhas, passando pela fumarolas vulcânicas.”.
Portanto, há uma linha de cosmética nacional de altíssima tecnologia e sem testes em animais, que aproveita os nossos recursos naturais de forma não destrutiva e nos traz resultados. Não creio que tenha de explanar as vantagens. Só posso falar dos meus resultados, que já usei uma embalagem de complexo de dia e outra de complexo de noite na totalidade:

As embalagens do produto são incríveis e o dispensador funciona muito bem. O creme, que é o mais importante, tem um óptimo cheiro, embora seja subtil. A minha pele absorveu bem o produto e não ficou vermelha, apesar de ser uma pele muito reactiva. Acrescento que, após um mês a usar o produto diariamente, a pele está muito bonita e mantém-se sem reacção adversa.

 

 

Aconselho toda a gente a visitar o site da Ignae e a ler sobre a história e a ciência desta minha nova descoberta. É uma delícia ver-nos a crescer com tanta qualidade.
Terei um banner lateral no blog, por uns tempos, com o link directo para o site. Quero apoiar o que é nosso.

 

PS - Tenho curiosidade em saber as vossas experiências com este produto. E sendo uma linha recente, eles, certamente, também terão. Estou no facebook e aqui, sempre com sede de saber tudo.
Bom proveito :)

 

 

 

#109 libertem o sarampo

 

Custa-me muito escrever isto, mas:

Liberdade, ponto e vírgula.

 

É muito lindo isto da liberdade e eu que sou toda sangue quente a defender a liberdade de tudo e mais alguma coisa, mas como é possível sentirmo-nos agora, perante a liberdade de escolha de não vacinar as crianças?

 

A menina morreu. Após 23 anos em Portugal sem nenhuma morte por sarampo. Morreu porque não era vacinada - fim da história.

 

Eu tenho um afilhado com 17 anos e nem consigo imaginar tal cenário. Ele, claro, vacinado, que essa questão lá em casa nem se coloca. Mas e se ele morresse por culpa minha? E se ele morresse por culpa de um idiota qualquer que pensa que sabe mais de medicina que os médicos e que é detentor de um conhecimento profundo de artigos da internet que falam sobre a conspiração da indústria farmacêutica e abre links com títulos como: “os medicamentos naturais que eles não querem que você conheça” ? O que faria eu, como poderia viver com tal revolta? Como vais viver tu, mãe da criança, tu e a tua homeopatia?

 

Não tenho dedos nas mãos para contar o número de pessoas que já me disse que as minhas alergias se curariam facilmente com medicação homeopática e meditação. A todos remetia um sorriso e o silêncio. Hoje, dedico-vos este post.

 

Sim, vamos todos deixar de vacinar o pessoal, vamos deixar de tomar antibióticos, vamos curar disfunções da tiróide com beterraba e podem fechar o IPO porque o cancro cura-se com dieta alcalina. Não digo que novas descobertas da nutrição não ajudam a prevenir e até na cura de muitas doenças, mas o equilíbrio é uma coisa tão bonita.

 

A internet, essa pólvora, trouxe-nos a informação de forma democrática. Apoia-se na liberdade, mas não sabe escolher tolos. Os tolos é que têm de escolher a internet e, ao fazer uma escolha consciente dos artigos a ler, ao fazer um equilíbrio entre informação e verdade, deixariam de ser tolos. E a tolice dos outros, rouba a nossa liberdade. 

 

Seus arrogantes licenciados na web: se forem para a universidade, também não sairão de lá a acreditar em tudo o que os professores vos disseram, mas sim com o espírito crítico desenvolvido. Com a internet pode acontecer mais ou menos a mesma coisa, é só serem humildes e não acreditarem em tudo o que lêem. Agora corram para o centro de saúde, que o vosso boletim de vacinas por esta altura já deve estar informatizado. Sim, corram, ou podem ser responsáveis pela continuação de uma desgraça que hoje se iniciou. Em caso de dúvida, consultar o artigo 283º do código penal português, que prevê pena de prisão a quem propagar doença contagiosa. O que escrevi faz mais sentido agora?

 

 

 

#108 gula - ep.3

 

Sou uma pessoa de muitas alergias. Garanto, contudo, que não escolhi ter nenhuma. Quase toda a fruta, alguns tipos de tomate, algumas árvores e relvas, pólen, pó, ácaros, gatos, cães, anestesias, medicação e alguma intolerância à lactose. Não posso beber um sumo de laranja há mais de dez anos e não sei o que é viajar sem levar um papel com números de emergência, um kit de adrenalina, seguro de saúde em viagem e muitas perguntas insistentes: I’m asking if the food has fruit, or the sauce was made with any kind of fruit. Caras de caso, compreendem-me, mas acham bizarro.

 

Em Portugal, o bullying: ai Helena, também, tens cada problema, esta rapariga está cheia de alergias, não pode fazer nada. E eu, a tentar acalmar o bicho que se me cresce no peito a cada frase com tom de condenação, como se fosse mania, como se fosse escolha, como se fosse, imagine-se, hipocondria. Como se eu não sonhasse que um dia um imunoalergologista me dissesse que estaria livre para comer uma manga à dentada. Eu faço muitas coisas, faço, aliás, quase tudo o que me aprouver. Muito mais coisas do que muito dos muitos que me olham com sorriso no canto direito e aquele semi-suspiro de graçola, ai qu’esta também tem cada uma, alergia a tudo, mas acontece-te o quê, umas bolhinhas? Resposta: se não for socorrida, morro. A maior parte das vezes não respondo, porque para além de ter de me privar em silêncio de uma boa quantidade de coisas da natureza e de temer cada anestesia ou vacina prescrita, as pessoas não perguntam realmente para saber a resposta. É uma pergunta vazia, uma cauda para continuarem a fazer aquele bullyingzinho desnecessário e infrutífero. Sorrio. Sois pouco.

 

Aparte  

Tenho pai médico que me acompanha neste processo e uma nutricionista (A Nitricionista) que, embora não faça com ela um plano alimentar por culpa da minha vida desordenada, está à distância de um telefonema me orienta nas minhas dúvidas. Faço análises e testes com frequência, sou seguida por mais do que um imunoalergologista. Com isto, pergunto-me: e quem não está informado das particularidades do seu próprio organismo, como faz? A dieta não está na moda, não se pode navegar na internet e decidir o que é melhor para nós como se fossemos estudados no assunto, nós, especialistas noutras áreas que não a nutrição e a medicina. Para isso, estão cá eles, que estudaram para nos amparar e guiar. Estamos presos ao nosso corpo pra sempre, dizem.

 

 

 

Fui jantar com pessoas que não conhecia, acompanhando o meu mais querido. Não senti especial ligação com nenhuma, nem vontade de falar o que quer que fosse meu. Pedi tudo sem pão, incha-me a barriga. O olhar. Trouxeram entradas com coisas que não podia comer. Todos comeram menos eu. O olhar. Quando andava na escola achava que a pressão dos pares e o bullying terminariam com a idade adulta. Erro meu, confundir adultícia com maturidade. Esta última, ainda por cima, pode demorar uma vida a chegar.

 

Vegans que chateiam os amigos que comem carne, que lhes falam de como baixam na sua consideração. Meat-eaters que têm preconceito com vegetarianos e acham que todos pertencem ao mesmo clube holístico. Vegetarianos que não compreendem flexitarianos. Paleolíticos a ralharem no facebook com quem quer aprender a dieta e comeu milho e ervilhas na salada. As dietas deixaram de ser focadas na contagem de calorias para dar lugar a escolhas, a estilos de vida. A ditadura das dietas, contudo, continua. Se não é pelas calorias, é pela intolerância que, até em algo que devia ser tão bonito quanto livre, continuamos a demonstrar com os nossos pares. Leitinho quente com bolachas maria, deixas alguma saudade.

 

 

Mais sobre Gula

Gula - ep.1 

Gula - ep.2

 

 

 

#107 o natal ainda dou de barato, agora, a páscoa?

 

Em criança, passei sempre a Páscoa no Algarve. Viagens intermináveis de carro entre o Porto e o destino escolhido da costa algarvia, paragem obrigatória no Canal Caveira, duas semanas de piscina e de brincadeira com os filhos do Dr. Aroso. Éramos onze, nós e eles e nunca celebrámos a Páscoa. Depois vim morar para Lisboa e depois passei quase cinco anos fora de Portugal e entretanto voltei para Lisboa e, no meio dessa confusão, nunca me apercebi que as pessoas efectivamente celebravam a Páscoa. Este fim-de-semana, sozinha, com tudo fechado, fez-me sentir como se estivesse a passar o Natal num país tropical e toda a gente estivesse recolhida com as suas famílias enquanto eu permaneci, à secretária, a trabalhar em projectos novos até a solidão me agarrar.

 

Para mim não existem fins-de-semana tradicionais, de sábado e domingo. Nem para mim nem para a maioria dos freelancers, artistas, profissionais liberais e trabalhadores a recibos. Quando dei por ela, estava envolta num sábado silencioso, lojas fechadas, colegas de projectos sem receber as mensagens enviadas no chat, filmes de domingo a dar a um sábado, silêncio, silêncio, natal. Mas está tudo a passar o natal com a família? Porque o natal ainda dou de barato, à pala da Coca-cola. Passou a ser a festa das prendas, da família, do Pai Natal vestido de vermelho e das iluminações e, sinceramente, se o pessoal não se recolhe à volta da lareira naqueles dias, o inverno custa muito mais a passar. Agora, a Páscoa? Mas de repente toda a gente é católico e vamos fechar todos os estabelecimentos e serviços na Quinta-feira Santa e Sexta-feira Santa e mais não sei o quê?

 

E depois lembro-me das minhas férias da Páscoa e junto dois mais dois. São as férias, a passagem do segundo para o terceiro período das aulas dos miúdos, a visita rápida a Portugal dos nossos amigos emigrantes, a desculpa para pararmos uma a duas semanas quando já há bom tempo. E uma amiga perguntava-me: mas quem está a favor de feriados não religiosos e depois aproveita os feriados religiosos, não é hipócrita? Pois claro que não, temos direito a aproveitar as férias/folgas que nos dão.

 

O que não me agrada é ter crescido com o raio da cruz enorme pendurada, sozinha, na parede da sala de aula da minha escola primária, escola pública, no início dos 90, violando a minha liberdade religiosa e a certeza de que vivo num país laico.

 

O que não me agrada é o catolicismo entranhado num país supostamente laico, essa mania de nos porem a celebrar os passos da vida de um senhor chamado Jesus que, tendo tido uma importância gigante no mundo, não entra nas referências do meu crescimento, conhecimento ou crença. 

 

O que não me agrada é tirarem-nos feriados relacionados com a história da república portuguesa e deixarem-nos os feriados católicos, implicando que toda a gente se ausente numa tradição religiosa porque, ou é isso, ou é ficar como eu, lorpa, a achar que ia trabalhar imenso este fim-de-semana e afinal foi tudo comer cabrito.

 

O que não me agrada é dizer que sou ateia, que tenho uma mãe e um irmão ateus, que não cresci com a religião e conhecer quem me olhe subtilmente de lado, como se aí houvesse uma qualquer falta de valores, de base familiar, como se fôssemos uns rebeldes perigosos. Não importa que sejas praticamente, ou até um nojo de pessoa, não importa que acredites, importa que não sejas assim tão radical, Helena, também não é preciso dizeres que és ateia, que exagero. O meu pai é católico e gosta muito de nós, já posso voltar ao quadro imagético da família feliz? 

 

O Natal ainda dou de barato, mas, agora, a Páscoa? Vou ali fazer a mala, amanhã vou de férias. Sim, os norte-americanos chamam-lhe Spring Break - em alguma coisa teriam de ser democráticos.

 

© Twitter Coca-Cola 

 

 

 

 

#106 óbidos e o oeste

 

80 quilómetros são o suficiente para ouvir Mallu Magalhães, o Pitanga, do princípio ao fim, pontuada por Aretha Franklin e um pouco de Ray. Quando damos por ela já saímos da auto-estrada em direcção ao Vau.

 

80 quilómetros é a distância que se percorre, num piscar de olhos, entre Lisboa e Óbidos, ou arredores lá no Oeste. Planícies, um cheiro diferente, uma calma praticamente impagável. Porque, literalmente falando, paga-se para ter acesso a este paraíso. Só que não é assim muito.

 

Para quem reside em Lisboa - e desculpem-me os demais, mas tenho de fazer deste ponto de partida da viagem o mesmo que o meu - ir passar duas noites ao Oeste é ter o luxo de desfrutar de um cenário completamente diferente do da capital, é como se viajássemos para outro país e chegássemos lá num instantinho.

 

Quando cheguei ao apartamento que reservámos, no Bom Sucesso Resort, ele disse que não queria sair mais dali e eu pensei, por breves instantes, se poderia percorrer esses 80 quilómetros todos os dias. Talvez aí se tornasse cara a brincadeira, terei de deixar a calma e o sossego para os fins-de-semana livres. No fim dessas duas noites e três dias tão bem aproveitados, percebi que os fins-de-semana, que no nosso caso foi de segunda a quarta, são quando o homem quiser e que vou ter de os conseguir mais vezes. Tenho a certeza - se fosse tangível, mostrava - que ganhei anos de vida nesta viagem.

 

Dois pisos, um closet, um jardim privado, a piscina à frente da casa, lagos perdidos pela relva, ninguém para nos chatear, horizonte à vista, as cigarras a cantarem, as estrelas todas à mostra sem poluição ou luzes a encobri-las, o vinho, o queijo e os dois copos elegantes à nossa espera. Só de pensar nisso, já tenho vontade de sair disparada a meio do texto, ligar o spotify na Mallu Magalhães e rumar para lá.

 

O tempo dilatado; o dia dava para tudo. Passeámos por Óbidos e jantámos no Petrarum Domus, famoso e, ainda assim, Português. Deliciei-me com um polvo estupidamente bem servido e um cheesecake de ginga de Óbidos, do qual não posso lembrar-me em demasia, a ausência de mais fatias faz mal à alma. A conta em conta, valeu a pena e recomendo.

 

No dia seguinte jantámos no The Literary Man, de imprescindível visita. É só entrar e percorrer as galerias carregadas de livros, tocar-lhes, pegar-lhes, lê-los. No The Literary Man, é possível perdermo-nos e é mais que permitido - é incentivado. Com um staff de elevada simpatia, enquanto lá estivermos a apreciar o espaço, o espaço é nosso. Servem gins e refeições. A comida, contudo, é demasiado cara e mal confeccionada, pelo que não recomendo, de todo, para jantar. Mas vale ir com tempo e vale ir sem tempo, a visita ao The Literary Man é uma boa experiencia das duas maneiras.

 

Fizémos as outras refeições no apartamento. A cozinha estava equipada com tudo o que era necessário e, segundo a apreciação do Chef cá da casa, as facas estavam aprovadas. Assim, com um Pingo Doce à entrada de Óbidos, num instante se levam meia dúzia de coisas, uma garrafa de vinho e muito amor. Como não aproveitar um terraço na relva, com horizonte verde e ar limpo?

 

Como dizia, no Oeste o tempo dilata. Ainda tivémos oportunidade de ter aulas de Hipismo (também havia paddle, laser tag e outras coisas igualmente originais à là série americaine), dormir sestas à tarde e horas à noite, fazer massagens no Spa e passear de carro pelas estradas que, às vezes, se pareciam com as de Sesimbra, às vezes, com as do Douro e tantas outras vezes com nenhumas que tenha visto antes. Portugal, quando quer, é enorme.

 

 

P.S. - ficaram por visitar o Solar dos Amigos, para um belo guisado perto de Óbidos, o Real Taverna, por trás da igreja de Santa Maria, o Bar Cave do Vale, ao pé do The Literary Man e ainda terminar a viagem com uma passagem nas Caldas da Rainha para trazer um cabaz cheio de coisas boas do mercado ao preço da chuva. Só este post-scriptum merece mais umas visitas. E, claro, mais umas publicações.

 

 

#105 gula - ep.2

 

Pátio da Galé, volta, estás perdoado! Será suficiente a possibilidade do regresso ao espaço anterior, para recuperar a excelente experiência de 2016? Ou agenda política e camarária veio estragar uma pérola nos eventos gastronómicos da cidade?

 

No ano passado fui ao Peixe Em Lisboa, pela primeira vez. E fui duas e fui três vezes na mesma semana. No Pátio da Galé, com bom tempo, coisas óptimas a descobrir, petiscos em conta, comprar senhas para ir levantar os petiscos não custava, ainda que no fim do mês o extrato da conta não fosse simpático. Mas tinha valido a pena, porque é só uma vez por ano, pensei, porque é incrível, dizia. E foi.

 

Este ano voltei ao Peixe Em Lisboa. Não voltei ao Pátio da Galé porque eles mudaram para o Pavilhão Carlos Lopes, aquela casa imponente no meio do Parque Eduardo VII. Com orgulho, levantei a minha primeira credencial de imprensa pedida por via do blog, este, o Miliuma, e entrei no Pavilhão.

 

É só isto? E era. Um salão com bebidas de um lado, comida do outro e as lojinhas no meio. Quase pequeno. Sem luz natural e um ligeiro cheiro a fritos. Sentei-me, pedi a uma família para me dar uma olhada nos pertences o que, felizmente, ainda é possível fazer no nosso país, e rumei directa ao Ribamar. Ai, os caranguejos de casca mole que me ficaram a atormentar o ano inteiro, ai, Ribamar, gosto tanto de vocês. E lá estavam eles, com molho de abacate e lima, à minha espera. Disse-me a menina: este ano estes são ainda melhores. Confirmo.

 

 

E assim acabou a minha belíssima experiência no Peixe Em Lisboa deste ano. Mais ou menos 15 minutos depois de ter começado. O resto foram duas horas de desconforto no meio de uma confusão de mesas e filas, pautada por outra alteração que tanto me desapontou: as doses, uma boa parte delas, aumentaram de tamanho e bastante de preço, também. A expectativa, não só minha, pois falei com mais gente sobre o assunto, era ir provar, petiscar ou degustar (como lhe quiserem chamar) diversas criações dos Chefs presentes no evento. Mas se me derem um prato que me enche o estômago, já nem vou conseguir provar os outros.

 

Com calma, perguntei-me se seria uma estratégia de eliminar a concorrência. Como: lançar no mercado um novo detergente da roupa e a marca de competição directa lançar uma promoção de leve 3 pague 1, para que eu só vá comprar o detergente novo passado um ano, quando já nem me recordar que foi lançado, quando já voltar a ter fome, neste caso. E no Peixe Em Lisboa, demoras um bocado até voltar a ter fome e quando dás por ela, já lá não estás. Ou eu, no caso, eu.

 

Enquanto isso, vou ali cozinhar uns hambúrgueres de novilho com espinafres, acompanhados de maionese caseira de manjericão e pimentas e ainda uma salada de maçã e nozes.

A Gula está a aquecer, nos próximos episódios há mais comidinha da boa e dicas, muitas, de como fazer coisas boas.

 

Au revoir!

 

Mais sobre Gula

Gula - ep.1 

 

#104 cães, homossexuais e violadores

 

Cães e saquinhos.

 

Anos 80. De mão dada com a minha ama, caminhávamos para a minha escola primária de olhos postos no passeio e ela indignava-se com a falta de limpeza dos donos. Era normal nessa época, não havia ninguém com  saquinho de recolha. Eu entregava-lhe o argumento da vergonha, as pessoas iam ter vergonha. Ela explicava: se todas as pessoas que se cruzam connosco carregassem um saquinho com cocó, deixariam de ter vergonha, pois todas estariam a fazer a mesma coisa e isso tornar-se-ia normal, não achas? Só tens vergonha se fores a única e, aí sim, toda a gente olhará para ti. Nesse caminho percebi a importância do rácio - da percentagem, da proporcionalidade - na sociedade.

 

 

Gays e o não-armário

 

No liceu, ser homossexual era um assunto sussurrado, falado entre risinhos nervosos, com um constrangimento tal que parecia que andávamos todos a comer arroz malandro com pauzinhos chineses num jantar de gala.

Havia um colega da turma B, do meu ano, que era claramente gay, não assumido. Todos sabíamos, ninguém comentava. Mais tarde, já em 1999, lembro-me de uma colega da escola de música surgir de mão dada com uma rapariga da mesma idade. E todos a admirámos, como se dar a mão a uma rapariga fosse um statement - e era. E mais ninguém, não conhecia mais ninguém que, aparentemente, gostasse de pessoas do mesmo sexo. Eu, que andava no liceu, na escola de música, na dança, no teatro e na natação. Conhecia, portanto, muitas pessoas de lugares diferentes, fazia parte de grupos distintos. E em tantos anos, apenas estes dois casos existiam no meu universo pessoal. Assim, era difícil assumir-se a homossexualidade ou bissexualidade. Porque seria assumir uma diferença numa estatística cruel de 1 para, imagine-se, 2000. Que me lembre, poucos pais da altura levariam com leveza a possível homossexualidade de um filho ou filha. Porquê eles, se tantos, tantos, tantos outros, eram normais?

 

 

Violência e Opressores

 

Há já alguns anos que os temas da violência, do abuso psicológico e físico, começaram a surgir nas conversas com amigas. Todas a comerem o tal arroz malandro com pauzinhos, interessadas em ouvir e em desviar a conversa delas, das suas experiências pessoais. A desculpabilização para a cretinice dos violadores era quase obrigatória, num processo de negação interior, anterior ao processo de negação social. Ninguém quer assumir que os seus direitos, o seu espaço e a sua integridade foram violadas. Ninguém quer ser a vítima de violência doméstica, de manipulação, de tortura psicológica. Podemos ser vítimas de negligência médica, da banca ou de injustiças governamentais, mas não somos vítimas das nossas mulheres ou maridos, que isso não se conta, isso é de se guardar por casa. De janelas fechadas. Nem nunca nos envolvemos numa relação sexual abusiva da qual perdemos o controlo, mas conhecemos pelo menos vinte amigas a quem isso aconteceu. E quase todas tivemos relações amorosas desrespeitosas e violentas, mas é mais fácil dizer que eram apenas conflituosas e estúpidas, ninguém percebe como é que ficaram juntos tanto tempo. Por causa do rácio. Ninguém quer estar do lado negro do rácio.

 

 

 

 

O rácio de tudo isto

 

O rácio - a relação, geralmente expressa em percentagem, entre duas grandezas - não falha, é matemática. Enquanto dependemos dele para a aceitação social das nossas vicissitudes, pomo-lo no canto da sombra da sala com orelhas de burro. Fechamos a porta e deixamo-lo lá, com a verdade.

 

Quase três décadas depois da minha ama me explicar o mundo de uma forma tão simples, as pessoas passeiam os cães com um saquinho de plástico na mão e ai de quem não o faça.

 

Quase duas décadas depois da minha amiga surgir de mão dada com a namorada, eu deixei de ter dedos para contar os meus amigos e amigas gay e bissexuais porque são, à vontade, metade do meu universo de amizade. E já o eram na altura da escola, foi a percentagem real, e não eles, quem saiu do armário. E a normalidade veio com ela.

 

Ontem, em conversa com uma amiga, disse-lhe que quase todas as mulheres da minha vida já me confidenciaram terem sido vítimas de alguma destas situações. Em surdina, longe de ouvidos alheios. Acredito que quase todas acham que são uma excepção e que passariam por todos os constrangimentos e vergonhas do único gay da escola e da única portadora de um saquinho de cocó.

 

Eu gostava de lhes dizer num megafone que o rácio delas, e também meu, está escondido algures para belo proveito da identidade de quem manipula, viola e magoa, mas que o havemos de encontrar, pois este resultado está a parecer-me perigosamente mais próximo da totalidade do que da excepção. E, talvez, quando souberem que passámos quase todas por algo assim e que os homens também sofrem do mesmo, possamos ser todos um pouco mais amigos e menos tolerantes com o desrespeito e aí, talvez, possamos andar todos de saquinho de plástico na rua.

 

 

 

#103 josé mayer, não estás sozinho

 

Carta a José Mayer, sem cabeçalho.

 

És o personagem-tipo da novela: há a stripper, há o patrão sem escrúpulos, há o traidor, há a vingativa e agora há o José Mayer. Que te dê algum alento saber que não estás sozinho, que, se tudo correr bem, serás o pioneiro da corrida, o primeiro de muitos a serem acusados e apontados por um comportamento perpetuado por todos nós. Sim, não nos queixarmos às autoridades é responsabilidade nossa, mas não é por isso que temos uma pinga de culpa ou somos menos vítimas. Explico-te porquê:

 

Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente. Agora imagina, José, que esse homem te massaja o pénis assim como quem não quer a coisa, devagarinho e de vez em quando. Ah, brincadeirinha, né Zé? Estás a vestir-te para filmar e vem esse colega elogiar a tua bunda, reiterar que se tu quiseres ele te leva às estrelas. Estão a filmar e ele apalpa-te, mas não te preocupes, que é só a brincar, não confundas a ficção com a realidade, José. Pensas em dizer ao produtor, ao diretor do projecto e do canal, pensas, magicas, mas será que não se vão rir na tua cara, dizer que és um novato que não percebes como estas coisas funcionam e que esse teu colega é um famigerado ator brincalhão e que tens é de ter calminha porque como tu, Mayer, vou te tratar por Mayer, há tantos outros atores prontos a fazer o trabalho? Vai pela sombra, Mayer, que o teu colega é um doce e só está a brincar contigo.

 

Sessão fotográfica. Tu és a Taís Araújo e no teu lugar está o teu coleguinha que, não sei se te lembras, gostava de te saltar para a espinha. No caso de não te lembrares, ele vai refrescar a tua memória neste momento constrangedor, ao ouvido. 

 

 

Que agradável deve ter sido tirar esta fotografia. A Taís Araújo também faz parte do movimento, Mayer. Ela e Deborah Secco, que, tão novinha, interpretou uma garota que se apaixonava pelo teu personagem. Foram bons os ensaios? Fizeste muitas piadinhas? Sentiste-te bem? E ela, sentiu-se enojada, suja, mal disposta e enraivecida? Não conheço a Deborah Secco, mas é assim que eu me sinto cada vez que pessoas como tu fazem aquilo que tu fazes. Todos os dias.

 

Portanto, fica contentinho, José, que não estás sozinho. José Mayers há no trânsito parado onde não podes fugir, há no café em frente à tua casa onde toda a gente se conhece, há nos idosos que podem dizer o que quiserem porque são idosos, há nos primos adolescentes que já andam a aprender o vocabulário necessário ao assédio, há no colega de trabalho, ou em dois ou em três, há nos namorados das amigas, há nos amigos dos pais, há nos vizinhos do lado.

 

José Mayers há em homens e mulheres que vivem perto de outros homens e mulheres e os destroem, magoam, insultam, desrespeitam e violam a sua saúde mental sem que possamos fazer nada, porque eles estão sempre lá e são aprovados pelo resto da pequena comunidade onde estamos inseridos. Corrijo, sem que pudéssemos fazer nada. Desculpem lá, Mayers, é que a situação, finalmente, mudou.

 

#chegadeassedio

 

 

 

 

 

#102 gula - ep.1

 

Só um pecado - o primeiro de muitos episódios.

 

Atualmente é isto, vai-se sabendo por aí que o homem cá da casa se tornou cozinheiro e até para workshops de cozinha me chamam. 

No outro dia, fui a uma espécie de master class de algumas horas com um dos finalistas de um programa de televisão de culinária estrangeiro, The Taste, em que se falou - ou ele falou - de forma meio aleatória sobre comida.

 

@asociedade.pt

 

A verdade é que gostei de quase tudo o que ouvi (e comi) naquela tarde.

Organizadas as minhas notas e traduzidas do inglês, aqui vão os tópicos que mais me interessaram:

 

1 - É boa ideia comermos alimentos não processados e inteiros, de preferência. Comam uma laranja em vez de beber um sumo de laranja natural feito de cinco laranjas. É demasiado para o nosso organismo. Se bebermos dois copos de sumo durante o dia, já ingerimos uma quantidade absurda de fruta. Eu não, que sou a alérgica à laranja, mas dois copos de sumo feitos de 20 morangos cada iam-me saber pela vida e fazer mal de certeza.

 

2 - A nossa dieta deve basear-se em alimentos frescos, orgânicos e sazonais - como os que a Quinta do Arneiro traz cá a casa. É imperativo deixarmos os químicos, os antibióticos e os alimentos geneticamente modificados. Estamos a destruir o nosso corpo.

 

3 - Mantermo-nos fiéis à tradição gastronómica - foi o ponto que achei mais interessante na conversa. E é tão simples perceber porquê: se no Alasca, por exemplo, alguém decidir tornar-se adepto da dieta do vegan rawfood, é capaz de passar um briol descomunal. Era virem de lá os senhores de kispo: bai ser vegan prá tua terra! - que eles têm, de certeza, um sotaque do norte como o meu.

 

4 - Dar ao corpo o que ele quer comer. Se ele pede espargos, assim à moda de desejos de grávida, vamos lá dar espargos. Não venham é com histórias de “mas o meu corpinho pediu três tabletes de chocolate branco”, que essa não pega.

 

5 - Óleo de côco para tudo. Já devem ter ouvido isto mil vezes, aqui veio a miliuma.

 

6 - Muito cuidadinho com os óleos vegetais! Não se sabe muito bem como são refinados e têm muitos componentes desnecessários. Mais uma vez, o truque é olhar para um rótulo e ler 100% de qualquer coisa - como coco.

 

7 - Cozinhar mais com comida naturalmente fermentada, o senhor da master class disse que faz bem à saúde e eu acreditei. Se quiserem saber porquê, este link ajuda:

Benefícios Comida Fermentada

Exemplos: tempeh, miso, kombucha, iogurte, kefir, kimchi. Qualquer dúvida, há disto no Miosótis em São Sebastião ou no BioMercado, na Avenida Duque d’Ávila, os dois em Lisboa.

 

8 - Adeus Molho de Soja, bem-vindo Tamari! Mais um link para saberem as diferenças entre cada um e o porquê de termos de trocar já para Molho Tamari. 

 

9 - Comprar manteiga sem sal, mas sempre manteiga e nada de substitutos falsos.

 

10 - E por fim, os doces: Açúcar de coco, Açúcar de Palma, Melaço de Romã ou Xarope de Bordo ou de Ácer (a.k.a. Maple Syrup) são, em quantidades controladas, a melhor forma de adocicar as coisas. Açúcares refinados, se faz favor, só quando o rei faz anos. 

 

©asociedade.pt 

 

À mesa, juntaram-se pessoas muito diferentes, mas estávamos todos deliciados a comer comida turca, um das origens do Chef alemão que conversava sobre a sua vida e sobre a comida na sua vida. Falava de Nova Iorque, onde estudou no Natural Gourmet Institute for Health & Culinary Arts e não só fiquei com água na boca com este nome, como fiquei com vontade de só comer ingerir coisas boas para o resto da vida.

 

Ao meu lado, uma rapariga simpática de nome Diva. Diva. À moda nova-iorquina, sem a conhecer, convidei-a para ir comer um ceviche depois da aula. Sem preconceitos, respondeu que sim. Comemos, bebemos pisco sour, seguimos ruas opostas. Ela, uma super jovem mulher, bonita, acabada de terminar um relacionamento e pronta para ir fazer as malas e, literalmente, viajar o mundo; eu, a pé para a casa que escolhi, depois de ter regressado de quase cinco anos pelo mundo, a casa que tornei o meu mundo, uma casa cheia de facas, armas brancas de amor afiadas, na qual me sinto segura como nunca antes senti.

 

Porque quis cozinhar para ele, ele quis cozinhar para mim e hoje cozinha para os outros como profissão. De mim aprendeu, dele aprendo. Reciprocidade.

 

 

 

#101 dia 1 de abril e não é mentira

 

Na categoria aparente das futilidades, na qual poderíamos discutir eternamente sobre se é válido o termo futilidade ou não para este assunto, faço-vos chegar uma ideia óptima para quem deseja celebrar o dia das mentiras. Sim, celebra-se qualquer coisinha que queiramos e já andamos todos fartos das notícias falsas à hora do almoço - he he he - sim, já percebemos que o busto do ronaldo era só uma brincadeira do dia das mentiras - he he he - ah... ai não?

 

Portanto,

é já AMANHÃ, dia 1 de Abril, como dizia, que acontece a 6ª edição do STYLE no Alegro de Alfragide.

Fácil de lá chegar, estacionamento, perto do Bounce, só coisas boas.

 

A Vogue vai participar fortemente, vão lá estar a Diretora de Moda, a Editora de Beleza, há Fashion Talks, há bloggers, consultorias, selfies, brindes, concursos, e ainda cartões oferta. Pode-se levar as crias, que elas também têm programas todos giros para elas. Há cabelos com L'Oreal e ainda um sugestões alimentares incríveis, com dietas Paleo à mistura.

 

Ora, eu podia detalhar tudo-tudinho, que eu já sei quem e a que horas vai lá estar. Mas fiquem com o cartaz, a dica e passem lá um excelente dia das mentiras que eu também hei-de lá passar. Verdade?