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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#96 a fobia da justificação

 

Eu sento-me no computador e ele, ao meu lado, olha distraído e de passagem. Algo o chama a atenção no ecrã, pergunta o que é, respondo. Depois começa a ler o que estou a escrever, inocente curiosidade de um amigo que também é marido e que sabe que não tenho nada a esconder. Conhece os meus desejos mais secretos e os nojos que mais me envergonhariam se alguma vez ditos em voz alta; sabe de mim e sobre mim o que nunca ninguém soube e, mesmo assim, contei-lhe nem metade das histórias que contei aos outros namorados, alguns em particular que pediam muito muito para saber de todas as histórias, todas as histórias. Com esses, um dia cansámo-nos e esse cansaço durou para sempre. Com este está tudo bonito e ainda não temos cansaços humanos. Não comenta nem condena. Eu olho para ele e digo-lhe para parar de ler as conversas. Ele diverte-se, muitas vezes, com o que lê e acha que não faz mal. Eu digo-lhe que faz, até porque as outras pessoas não estão a falar com ele mas comigo. E aí veste o respeito e afasta-se.

 

Na casa dos meus pais, o ecrã do computador está de frente para a porta do quarto que me pertence, o meu na casa deles. O meu pai entra, esquece-se que já passei dos trinta e entra como se eu fosse uma menina, batendo à porta a meio do caminho da entrada. Queres vir jantar uma francesinha? Ah, que interessante, o que é isso que estás a fazer no computador?

 

Tenho dias em que só quero ficar em silêncio, num voto sagrado não-religioso mas obrigatório, para não ter de me justificar porque fui de metro e não de carro, porque dormi mal, porque sonhei com o que sonhei, porque quero desligar o computador em vez de o colocar em pausa, porque tomo banho à noite e não de manhã, porque é que não fui ao ginásio, porque demorei mais do que o suposto, porque não tenho usado sapatilhas e ter de contar da bolha que fiz no segundo dedo mais pequeno do pé esquerdo e daí ter de ter a conversa de sim tenho de ir ao médico mas não me apetece ir agora mas isso depois piora convém ires já mas ando farta de ir a médicos não sejas dramática é só uma bolha no pé mas posso, por favor, não falar sobre a bolha no pé?

 

Silêncio.

 

Lembro-me do meu avô, sentado na sua cadeira em frente à secretária de madeira, do toque das mãos dele, do cheiro doce da careca, do seu cabelo.

 

Lembro-me da minha mãe dizer que não tinha paciência para dar justificações a ninguém e desaparecer e eu achar que ela estava a ser egoísta e isso deixar-me triste. Num instante, regressava, sempre foi uma mãe presente.

 

Lembro-me de um ex-namorado que me questionava sobre cada passo que eu dava como se fosse um investigador da polícia judiciária e eu a maior criminosa do séc. xxi. Andava bem enganadinho na obsessão, porque nunca o enganei.

 

Lembro-me do meu irmão, adolescente, mentir e toda a gente achar que era verdade. Lembro-me de eu, adolescente, dizer a verdade e toda a gente achar que era mentira. E eu chorar, impotente, por não conseguir defender a verdade que é tantas vezes tão mirabolante.

 

Aprendi, assim, a dizer sempre a verdade. Dizendo-a vezes sem conta até as pessoas acreditarem e ainda hoje muita gente não acredita em mim, em mim, que nem sei mentir. Não dizem, riem-se com as histórias, mas eu vejo nos seus olhos a descrença. E penso que ainda bem que já passei dos trinta para me chatear muito menos com isso.

 

Lembro-me do meu avô e da sua caligrafia. Era doce nas mãos de um professor de matemática austero.

 

Lembro-me de toda a gente achar que o meu avô estava em silêncio há muitos anos, porque não queria responder a perguntas, porque não estava para isso, porque não queria dar justificações a ninguém. 

 

Lembro-me de começar a crescer e ele a ficar velho. A secretária de madeira e o sofá de tecido de frente para ele, onde eu me sentava, a janela da marquise gigante, à moda antiga. Um dia, depois de as pessoas começarem a sair da marquise e se espalharem pela casa e de estarmos só os dois, naquele silêncio do costume, ele limpou a voz e falou. E, desde aí até morrer, falou todos aqueles sábados comigo, lá para a hora do lanche, quando mais ninguém naquela casa lhe ouvia a voz senão eu. Não lhe fazia perguntas, muito menos lhe pedia justificações. Ficava só a ouvi-lo, falávamos de trivialidades, do crescimento, de matemática, de sonhos e de amor. Eu dizia-lhe: gosto tanto de si, avô. E ele respondia: E eu de ti, minha cachopa. Foi bonito e alentejano, toda a sua vida.

 

Herdei dele um feitio duro e impaciente, uma fobia tremenda em me justificar e um gosto particular pelo silêncio. Aprendi, na sua ausência, que prefiro a fobia da justificação do que a desistência do mundo em me perguntar - seja o que for.

 

 

 

 

#95 a luxwoman perguntou-me umas coisas e eu respondi

 

Mas isso não me preparou para o impacto de abrir a página da LuxWoman e deparar-me com isto:

 

 

 

Mulheres com atitude e Helena Canhoto no mesmo sítio. Já ganhei o dia. :)

http://www.luxwoman.pt/helena-canhoto/

 

 

Obrigada LuxWOMAN, Carolina Almeida e Masemba pelo simpático convite!

#94 ciclos e coisas que não interessam a ninguém

 

Em 2013, Maio, ele foi embora para a Holanda. Foi ser feliz.

Eu, em Outubro, com ainda 17 anos, lembro-me perfeitamente do momento em que cheguei à Estação de Santa Apolónia, franzina de 50 quilos, com uma mala de cada lado de, à vontade, 25 quilos cada.

 

Na minha vida, os ciclos de começo e fim, acompanham quase sempre os períodos do meu aniversário e do natal. Quem sabe se é porque faço um balanço para ver quem é importante, o que me faz bem, quem me faz mais bem que mal. Depois, sem querer forçar escolhas naturais, há os avarios esporádicos.

 

Começa pela máquina da roupa, depois a bateria do carro, contas em atraso que ninguém tinha topado os envelopes, roupa tingida, dores de barriga, um quisto ou outro que aparece aqui ou ali, médicos, perdemos um cartão, dois cartões, partimos o jarro de água favorito e ainda acompanhamos a onda com uns quantos nãos e desilusões. É, certamente, panca minha, pois da última vez não começou com a máquina da roupa, mas, na minha ideia, começa quase sempre com o raio da máquina da roupa que avaria e aí já sabemos que vem um turbilhão de mudanças e podemos acabar a viver no dubai, se não estivermos atentos.

 

O que fazer nestas alturas?

Não faço a mínima ideia. Eu costumo piorar e ignorar a onda de má sorte e continuar a fazer miliuma coisas, com todas a correrem altamente mal e acabo cansada, de pança mais gorda, recostada no sofá ao fim de mês, mês a meio a pensar: preciso de férias.

 

Contudo, a bateria do carro é nova, os exames estão feitos e está tudo bem, temos dois ou três jarros novos de água e o cartão há-de estar a chegar ao correio. No turbilhão, pessoas deixaram de ser importantes e, com isso, deixaram de ser amigas. Outras, no meio de festas inesperadas, surgem, sem saber de nada, “há tanto tempo helena, não desapareças, gosto tanto de ti”. 

 

Os nossos pais levam-nos ao aeroporto. Catorze anos depois, continuam de olhos marejados na viagem.

Enquanto o meu avião da ponte aérea Porto-Lisboa faz a curva para se posicionar para a descolagem, passo pelo meu irmão a entrar no seu avião da British Airways, que partirá pouco depois do meu. Na autoestrada, a uns metros da pista, estaria a passar o carro deles, de coração e estômagos apertados, como se nos deixassem fora do ninho pela primeira vez.

 

 

#93 a garrafita precisa de amorzito

 

 

Para quem ainda não viu a campanha, aqui vai uma fotografia a uma página de jornal:

 

É. Eu sei.

 

No outro dia estava a gravar com o telemóvel um famoso InstaStories sobre a beleza dos prédios de Lisboa ao pôr-do-sol e, enquanto proferia essa frase cliché mas sempre digna de lembrança, um carro com uns otários quaisquer passou e ouvi: és mesmo ljdhozfg, fazia-te çfhaglijdbeg, ó sfglahfna. Juro que foi isto que disseram. Eu, num tripeiro menos educado, proferi a seguinte frase: “Só para lembrar que os prédios de Lisboa ficam mesmo vai pró cará* ó filho da p*!”. Parei de gravar e ri-me muito, pensando na alegria de aquilo não ser um directo.

 

Ora, a Débora Monteiro tem curvas. Bonitas. E é giríssima. Está tudo bem. E se alguém se atrevesse a soltar verborreias semelhantes às acima retratadas, ela responderia certamente com o nível tripeiro que lhe vai na veia: Bonita é a garrafita, ó morcom! E nisto ficaríamos. Bonita, bonita, é a nova garrafita. Não que eu seja condescendente com estes pseudo-piropos untados a violência, mas juro que aqui só vejo boa intenção. Por exemplo: porquê “Bonita, Bonita” e não “bonito, bonito” que, como toda a gente sabe, é rapidamente completado com algo sobre tomates e, às vezes, as canções de Tozé Brito? Porque a campanha anterior era:

 

 

E isto, sim, é de mau gosto, senhores. Porque toda a gente percebe o trocadilho do “bonito bonito” e do favaíto.

 

Na nova campanha houve, claramente, uma provocação, uma crítica aos anúncios das gajas boas, falando das curvas da garrafa que, essa, sim, é o que interessa.
Contudo, há um tiro no pé. A Débora é bonita, a garrafa é, de facto, para o target, vá, bonita, mas a fotografia é péssima. E a roupa. E a produção. Porquê? Parece que um leitor do post do MCSomsen sobre o assunto acertou:

 

 

Pois quem teve a ideia de melhorar o “bonito bonito”, tirar-lhe a brejeirice, brincar com o sexismo e quase atribuir o poder à mulher nortenha, que, banhada pelo Douro, os manda a todos olhar para as curvas da garrafa, não esteve nada mal. Às tantas tinha esta e mais três ou quatro ideias em carteira, como é comum nestas andanças da publicidade e como o autor do comentário sugere. Mas foi esta a ideia escolhida - afinal, para quê responsabilizarmo-nos por uma subida de bom gosto e tacto do target a que se dirige?  Se a respeitável Débora tivesse sido bem vestidinha com uma direcção de arte à maneira, provavelmente tudo isto teria sido engraçado o suficiente para que o trocadilho,a provocação e o gozo com este tipo de campanhas fosse evidente em um nanosegundo. 


Como nos filmes a gozarem com os maus filmes, cujo target são os espectadores desses mesmos maus filmes, há sempre uma linha muito difícil de definir. E de defender.

Bonita, Bonita, é a nova garrafita e a verdade que é o Favaito continua a ser uma maravilha de se consumir na verdadeira tasca portuguesa, onde ainda nos rimos com os bigodes nojentos e farfalhudos e os calendários das mulheres de Santarém - tascas onde os turistas ainda não nos obrigaram a ter de viver sempre no melhor do bom gosto e onde ainda podemos mandar pra certo sítio os homens dos moscatéis.

 

 

 

#92 desculpa lá, quanto é que ganhas mesmo?

 

Uma vez por ano lá acontece. Menos de 10 euros na conta. Não dá para levantar. Não serve, virtualmente, para nada. É aquele troco que as casas de câmbio não aceitam, aquele arredondamento fofinho com o qual ninguém, nem eu, se costuma importar.

 

Claro, a bateria do carro avaria, ficamos na reserva antes sequer de sair da rua, o Vimeo para profissionais pede o valor de subscrição, os sites, as anuidades que ameaçam: vamos apagar todos os teus dados e mais um par de calças se não pagas hoje!

 

O tempo melhora drasticamente, de um dia de Inverno para o primeiro dia de Verão do ano e tu lembras-te que tens de comprar sandálias porque já ferves das patas e não tarda não tens o que calçar. Tu não, eu, eu estou a falar de mim, bolas. Lá irei, mais próxima fisicamente do poder económico do cartão multibanco da minha mãe, à procura de umas chanclas que me permitam arejar, estar bonita e não escorregar pela calçada portuguesa fora, que o Chiado com tantos turistas fica com a calçada mais polida que o chão do Palácio da Bolsa. Mas não é agora, não, que eu agora tenho exatamente €9,48 na conta.

 

 

Se eu dissesse este texto em voz alta, em tom de monólogo improvisado à frente de uma boa quantidade de gente, conseguiria ver o ar de constrangimento a apoderar-se dos seus olhares. Falar de dinheiro é pecado. É pouca vergonha. Coisa feia. Não se diz, Helena. Nem se pergunta. Não se discutem salários, não se conta como se pagam as viagens às Polinésias por aí espalhadas, não se fala, em nenhuma circunstância, do desconto para comprar a mala da Prada que repetimos há 17 anos nos casamentos da família. Que feio, o dinheiro - diriam.

 

O meu é bonito - exclamaria, se de um monólogo se tratasse, então. O meu dinheiro veio só de sítios bonitos, do amor dos pais que lutaram por ele, veio da minha cabecinha que se põe a trabalhar e a inventar trabalho quando ele não há, vem das minhas personagens, vem do meu amor pelo que faço, o meu dinheiro vem de amor. O meu dinheiro vem é amor. Enquanto o amor não é finito, o dinheiro é. Mas é bonito na mesma. E aquele que virá amanhã também. Bondoso, despudorado e honesto. Como a dona.

 

 

#91 o primeiro aniversário da Miliuma

 

Há um ano estava ansiosa a escrever os primeiros posts para ficarem prontos no dia 1, a decidir com a Sapo tipos de letra e tamanhos das fontes.

Há um ano estava a provar gins na Gin Lovers® até chegar ao Gin Miliuma®, a convidar amigos para celebrarem comigo este começo de qualquer coisa.

Há um ano o céu estava menos nublado e a temperatura um pouquinho mais alta. Há um ano estava cheia de medo.

 

Não me tomem, por favor, como presunçosa. Eu sei que esta coisa não é de extrema importância para qualquer um dos leitores que por aqui se deixa ficar. Nem para mundo, portanto, porquê o medo e a ansiedade? Porque é importante para mim. É uma desconstrução do meu eu nas suas diversas esferas de interesse, é uma tentativa de, paradoxalmente, roçar um narcisismo necessário com o intuito de expor o que guardo em demasia e quizas, nessa nessa fuga interna-externa, a informação e as sensações se colarem também a vocês - e o que antes era meu passar a ser também, de alguma forma vosso.

 

Conheci umas quantas pessoas que, de um dia para o outro, desapareceram do planeta. Os mais optimistas dizem que se tornaram pó de estrela. Assim, de um dia para o outro. Não posso de todo almejar que um simples blog onde falo de tantas coisas tenha qualidade para ser considerado um legado. Mas se há coisa que aprendi neste rápido e breve primeiro ano de existência do Miliuma, é que ele pode ser um postal, uma fotografia de um lado, um texto do outro, destinatário world wide web.

 

Promessas eleitorais

O ano que agora termina foi uma introdução, ano zero desta aventura.

Este ano vou escrever muito, sobre quase tudo o que penso, me incomoda ou me agrada.

Vou filmar-me, vou filmar os outros, vou filmar a vida.

Vou continuar a motivar-me com a maravilha de comentários que recebo e com as mensagens quem me pede que escreva mais.

Vou partilhar! ♥︎

Vou viajar e falar de tudo, vou calcorrear Lisboa e Porto e Portugal e falar de tudo, vou criar projectos novos e falar de tudo.

Uma coisa é certa, eu sempre fui feita de miliuma coisas. Com este meu pequeno grande projecto, só passei a assumi-lo todos os dias.

 

Este ano vou fechar um ciclo e começar outro que se espera que seja ainda mais intenso e positivo.

 

 

 

Obrigada pela preferência, pessoas.

Que ano!

 

#90 maria helena vieira da silva

 

Uma amiga liga-me a dar os parabéns. Pessoal, é hoje o meu episódio do Ministério do Tempo. Rebobinámos na box e assistimos, os quatro, à magia moderna de me ver a interpretar a Maria Helena Vieira da Silva numa placa de LEDs luminosos. Para eles, esteve bem e passou num instante. Boa, miúda. Para mim, não foi bem assim.

 

Enquanto passamos pelos vossos televisores como hologramas, apropriamos palavras que vós, espectadores atentos, acreditam desaparecer connosco quando desligam o botão e vão dormir. ( os espectadores desatentos não escutam essas palavras, ouvem manchas sonoras que fazem companhia nos fins de dia, nada contra, acho enternecedor pensar que a minha voz pode fazer parte dessa tecelagem humana.)

 

Escrevo aos espectadores atentos, os que imaginam como será a nossa vida de ler textos, ensaios, talentos naturais a debitar as palavras das personagens que parece que têm sempre tanto a ver connosco. Escrevo para lhes dizer que em cada episódio há dias e dias de trabalho, de doze horas diárias em estúdios, de acordar de madrugada e chegar a noite a casa, de receber textos à última da hora de cenas que ainda estão longe de acontecer e que estão descontextualizadas daquilo que já conhecemos da personagem, textos com palavras que não foram escritas nem pensadas por nós mas, tantas vezes, por pessoas que nunca conhecemos na vida. Com as tais palavras que se tornam nossas. Para lhes lembrar que chegamos a casa e também gostamos de fazer sopa para o jantar, dar um beijo a alguém, tomar um banho, fazer algo de diferente, mas há textos para estudar e de repente já só faltam outra vez cinco horas para acordar e ter a cara mais lavadinha do mundo em frente a lentes e câmaras que nos engordam e disformam para duas dimensões, favorecendo uns e acabando com a auto-estima de muitos, muitos mais.

 

Eu, eu não tenho razão de queixa. Quanto mais trabalho mais gosto do que faço, interpretar é uma fonte infinita de felicidade. Contudo, espectadores atentos, expectantes e especuladores, as palavras não desaparecem quando o televisor desliga. Podem desligar todos os televisores do mundo e destruir todas as boxes e gravadores existentes que o nosso cérebro guarda as palavras, uma a uma, e bebe as personagens e aglutina-as em nós, qual Pessoa, qual Álvaro de Campos. As palavras não vão embora porque nós também não vamos embora e, enquanto se cruzam com os nossos hologramas televisivos, os espectadores atentos e desatentos estão, apenas e na verdade, a ver-nos a crescer. 

 

 

#89 arroios também é lisboa

 

Ali estávamos os dois amigos, sozinhos, agraciados por copos de vinhos incríveis, apresentados pelo dono do Great Tastings, enquanto partilhávamos tártaro de atum com molho de wasabi, vieiras braseadas, crocantes de alheira e pratos de queijo com uvas. O Chef veio à mesa perguntar se estava tudo do nosso agrado.

Conversámos. Por mim, teria juntado toda a equipa na nossa mesa e jantava com eles. Só que o Great Tastings não é no meio dos turistas, nem à frente de uma paragem de tuk tuks. Não é no Príncipe Real, no Intendente ou na Praça das Flores. É no Jardim Constantino, lindo, ao lado da linda fonte da Estefânia. E aí só vai quem conhece Lisboa.

Eu, que conheço um bocadinho de Lisboa, vou lá.

 

 

Great Tastings Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

#88 o restaurante mais bonito de lisboa

 

À entrada, ainda que haja lugares disponíveis, é-se reencaminhado para o bar, numa mezzanine maravihosa. A paixão começa aí: é, na minha opinião, o restaurante mais bonito de lisboa. Não descrevo o espaço porque há um risco demasiado grande em ser injusta, em criar imagens mentais demasiado aquem da realidade. A visita ao Asiático, do famigerado Chef Kiko, é obrigatória pelo seu espaço. Se fosse turista em Lisboa, sairia feliz com a visita - ver arte, comer, comer-arte é tempo mais bem vivido do que em alguns museus.

 

Mas não sou turista em Lisboa. E o meu companheiro cozinha horrorosamente bem, como toda a gente já sabe. E tenho amigas que viveram na ásia e me levam a restaurantes muito fiéis aos sabores asiáticos lá do sítio.

 

O Asiático peca pelas doses pequenas e caras para quem quer satisfazer-se com várias. O couvert é fraquinho e caro. Falha nas texturas - demasiadas a focar-se no gelatinoso e ligeiro - e em informar os clientes que devem usar com fartura as especiarias disponíveis nas mesas. Sem elas, a cru, como eu comi, a comida sabe a pouco. Voltarei para um menu de degustação regado a especiarias e só assim poderei dar o meu veredito final. E para beber mais do pisco sour, que é bom! Contudo, como em alguns museus, uma visita chega.

 

Até lá, deliciar-me-ei vezes sem conta n’O Talho e n' A Cevicheria, que o Chef Kiko, nesses, acertou na mouche.

 

 

O Asiático Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

#87 vamos lá ter um emprego como deve ser

 

Já não é a primeira vez que Candela Peña pede trabalho em público, à comunicação ou em entregas de prémios, sem qualquer pudor. Não tenho como não empatizar com a sua causa. Desta vez, foi na passadeira vermelha dos Goya, que, quando abordada pelos jornalistas, soltou: «Pues muy bien, que me den trabajo, porque llevo meses sin rodar y tengo que pagar la luz y las facturas.»

 

O documentarista Paulo Carneiro chamou-me à atenção para este artigo, que menciona Candela Peña e descreve brevemente a precariedade na área do cinema. Passei para os comentários que, como é habitual - e, pelos vistos, não são só um cancro das publicações portuguesas - são tremendos. Um tipo dizia-lhe que arranjasse um trabalho normal, de gente normal.  E outra: Que vá lavar escadas, como as outras pessoas.

 

Vamos lá ver: o que é ter um trabalho normal? Como gente normal? É ter um trabalho não-qualificado? Não pode ser um trabalho qualquer, como médico, advogado ou professor, com certeza. Porque para esses também é preciso um curso superior, colocações - e eles também correm o risco de se queixarem, atenção. Um trabalho normal é lavar escadas, servir a mesas de restaurantes de segunda que não peçam curso de hotelaria, reposição em armazéns e supermercados, ser funcionária da caixa registadora, empregada doméstica? É isso, não é? Porque fora desses trabalhos, bom, somos todos uns queixinhas exigentes. Trabalho artístico? Isso é para mandriões! Vão trabalhar, chupistas!

 

Está bem, então vamos todos ter trabalhos que estes amorosos comentadores anónimos dizem ser “os trabalhos normais”. E vamos ter um filho. Ele nasce, a sua roupa branca e útil, como todas as suas outras roupas brancas e úteis, lavadas em água e sabão normal, sem cheiro. Vai para a escola primária, livros a preto e branco em papel reciclado. Não há imagens, não há fotografias, não há ilustrações, não há vídeos, não há desenhos animados, não há brinquedos. Afinal, qualquer um desses mandriões artistas a viver à custa dos outros, está a lavar escadas, não pode andar a pintar livros nem a gravar vozes de desenhos animados para as crianças. Apaixonam-se. Apresentam o namorado aos pais, que lhe perguntam que livros andou a ler. O dicionário, as páginas amarelas, o manual da máquina de lavar roupa. Suspiram, a ficção era coisa de outros tempos. Acabam de jantar e ouvem as notícias na rádio, vestidos com a mesma farda em tamanhos diferentes, não vá a moda violar a moral da sociedade, que parvoíce, a moda, essa grande futilidade.

 

Prédios brancos, fardas, silêncio, casa, escadas, detergente, casa, salário ao fim do mês. Que se lixem os filmes, o teatro, as roupas bonitas, as pinturas, as esculturas, as dobragens, a arte urbana, que se lixem os candeeiros, as flores, que se lixe o pavão que nasceu para embelezar este planeta. Que se lixe a cultura, o motor da civilização. Que se lixe esta merda toda porque somos todos um moralistas que temos de viver condenados a ter um trabalho que alguém - que não sabemos quem - decidiu que era normal. Que se lixe a Candela Peña, que já ganhou três Goyas, que é talentosa até dizer chega e que vá lavar escadas e fazer reposição de iogurtes, que isso de ser bom a fazer filmes não serve para nada. Que nos lixemos todos nós, que, pelos vistos, não servimos para nada. Obrigada pelo conselho. Começo já amanhã.

 

              Citação de Fiodor Dostoievski